Quando eu me for
A vida é feita de histórias, algumas ficam para sempre na sua memória, algumas permanecem nos seus sonhos, e para alguns, tornam seus sonhos em pesadelos.
Essa é sobre um homem que tinha uma família feliz, uma esposa que o amava muito, uma filha que o admirava mais que tudo na vida. Era um escritor, talvez de sucesso, publicou três livros, o último colocou seu nome no mundo, os olhos dos leitores voltaram-se para seus livros, esgotando as livrarias. Mas isso há três anos, de lá pra cá nada relevante foi escrito, apenas alguns contos, pequenas histórias para revistas e blogs. Seu agente estava pressionando, ele precisava criar alguma coisa, precisava voltar a ser um talento, talvez voltar a ser o homem que conquistou a mulher de seus sonhos.
Ele começou a passar boa parte do dia trancado em seu escritório, tentando fazer mais um grande sucesso, precisava pagar suas contas, o dinheiro que ele sabiamente administrou de seu ultimo livro já estava acabando, sentia-se acabado, no fundo do poço, tinha vergonha de olhar para a filha, tão pequena, tão parecida com sua esposa, o maior presente que Deus lhe deu. Mas ele esqueceu isso, em algum momento da sua vida, talvez no meio do caminho alguma coisa fez com que ele acabasse esquecendo que o que mais importava em sua vida era a sua família.
Os dias passaram-se rapidamente e logo se tornaram meses, ele se guardava em seu escritório, sua família sentia sua falta, mas isso ficou longe de seus olhos.
– Pai, brinca comigo?
– Papai não pode, filha. Papai está escrevendo um livro, o livro não se escreverá sozinho. Depois eu vou te empurrar no balanço, mas por enquanto você pode ir se balançando sozinha.
Esse diálogo ficou mais presente em sua vida, quanto mais próximo ficava de escrever um bom livro mais ele afastava sua família. Sua esposa sentia sua falta, às vezes ele flagrou seu choro, seu lamento e por vezes ele prometeu parar. Mas tudo piorava, começou a viajar sozinho à procura de inspiração, de histórias que pudessem abrir seus olhos, mas nada tocou seu coração, seu escritor interior estava escondido, intacto em alguma parte do seu ser. Aos poucos tornava-se um clichê, um escritor que não conseguia escrever.
Sua filha pedia para que ele não a deixasse sozinha, falava que ela precisava dele, que a mamãe não parava de chorar e que ele tinha prometido, mas nada parecia resolver.
Então tudo mudou, talvez uma força divina tenha se cansado e decidido mexer seus pauzinhos, em uma noite de primavera ele teve um sonho, sonhou que em uma de suas viagens para outro estado, em uma livraria durante uma seção de autógrafos em meio à multidão lá estava sua filha, algo impossível de acontecer.
– O que faz aqui, é impossível, estamos muito longe de casa, como chegou aqui?
– Eu te segui papai, o senhor prometeu que iria parar, que não iria me abandonar, mamãe está sozinha em casa e os seus pulsos estão sangrando, papai faça parar, faça mamãe parar de chorar. Eu vim de longe só para dizer que o senhor é o melhor pai do mundo, mas aqui está o senhor, com eles, levante e diga a eles que o senhor os ama, que os prefere a sua própria família.
As palavras pareciam navalhas, cortando seu coração. As lágrimas visitaram seus olhos e ele saiu procurando a filha, mas não conseguiu achar, ela parecia ter sumido no ar, voltando ao seu quarto de hotel, um quarto quase escuro iluminado apenas pela letra “h” da palavra “hotel” escrita em neon. Ele arrumou suas coisas e pegou o primeiro voo direto para casa, mas entre sua família e seus fãs o avião caiu, o sonho tornou-se pesadelo e ele acordou. Era uma manhã linda, os pássaros cantavam e o sol clareava o dia, sua esposa brincava com sua filha, ele se aproximou e disse:
– Quando eu me for apenas siga em frente, não sofra, fique alegre sempre que ler algo que escrevi, apenas saiba que eu estou olhando o seu sorriso, eu não estou triste, então minha filha, não sofra apenas sorria de volta.
Kledson W. Fausto
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